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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Os "comediantes"


Nesta cada vez mais velha e frágil Europa onde nos encontramos, a qual gostaríamos que fosse como uma só nação, é interessante apreciar e refletir sobre os resultados eleitorais das últimas eleições legislativas de Itália.

Talvez porque o resultado das mesmas tenha efeitos colaterais noutros países como o nosso, talvez pela situação de ingovernabilidade criada com o resultado obtido, talvez por alguma semelhança que nos possa parecer existir entre estes resultados e outras votações noutros países.

Dois dados surgem, seguramente, destacados na votação feita pelo povo italiano:

O primeiro, é que não gostaram do governo liderado por um credenciado técnico chamado à governação numa fase difícil da economia europeia e da economia italiana, Mário Monti, o qual, submetendo-se a sufrágio, ficou em quarto lugar nas preferências do eleitorado.

O segundo, é que é possível a um comediante conhecido obter grande fatia dos votos, senão mesmo uma larga maioria dos votos num acto eleitoral destinado a escolher um novo governo do país.

Nós, de fora, podemos olhar para este resultado com alguma indiferença, quer por pensarmos que não nos diz respeito, quer por pensarmos que no nosso país não seria possível.

Mas, não creio que assim seja.

Estes dois dados traduzem uma realidade bem presente no nosso dia a dia.

A desconfiança nos governantes, designadamente nos que procuram colocar um travão no despesismo público incontrolado, por mais sérios que sejam, por mais currículos invejáveis que apresentem, e a crença naqueles que, desconhecedores das condições de governação, prometem o possível e o impossível, o correto e o incorreto, fazem e repetem ofertas, mesmo sem qualquer prova de credibilidade dada, desempenhem eles funções de comediantes, de palhaços, de atores, ou outras, sejam eles analfabetos ou letrados.

E, da desconfiança nos políticos caseiros à desconfiança do exterior na capacidade de governação interna vai um pequeníssimo passo, com efeitos devastadores num conjunto de países super endividados, geridos continuadamente em função do voto, sem soluções económicas e financeiras, já hipotecados a outras economias e a algumas multinacionais que sem respeitar um conjunto de regras tontas por cá tidas por dogmáticas, impõem-nos a sua produção, perante a felicidade dos governantes europeus.

Sinais de uma degradação social e económica que só com muito sacrifício será invertida, cujas consequências serão ainda difíceis de prever.

Por ora, diz-se, é o descrédito das chamadas elites, porque as mesmas já não são o que eram. Um comediante anima-as e supera-as.

domingo, 23 de setembro de 2012

O Povo que pague a crise


Desde que os sinos tocaram a rebate, apenas temos assistido ao lançamento dos mesmos pregões: Os trabalhadores têm de pagar mais impostos e receber menos rendimento.
 
Já lá vão mais de dois anos e nem uma palavra foi dada sobre a necessidade de reduzir o número de cargos políticos, designadamente deputados, vereadores e assessores, sejam secretários, adjuntos ou outros tais.
 
A única medida a esse respeito lançada, ainda que de forma tímida, foi acabar com as mais pequenas dos mais pequenos: freguesias quase sem população.
 
Mas, mesmo a este nível, aguarda-se, com curiosidade, a sua concretização a fim de se saber o que na verdade tal anunciada reforma significará.
 
Contudo, esta crise resultou sobretudo das políticas implementadas pelos governantes que continuam a manter privilégios, regalias e rendimentos improdutivos que eles próprios, enquanto decisores atribuíram aos seus futuros ex cargos.
 
Porque há-de a máquina política e improdutiva continuar tão pesada quando se pretende confiscar tanto e cada vez mais rendimento aos que trabalham?
 
Porque há-de essa máquina ser constituída por aqueles que nem tão pouco são escolhidos pelos militantes ou simpatizantes dos partidos mas sim designados pelas cúpulas e lóbis que se mantêm colados sistematicamente aos partidos?
 
Estamos numa guerra desigual, num sistema político desvirtuado, numa democracia meramente formal a um pequeno passo de novas ditaduras.
 
O alheamento da população em relação à política continua a ser ambiente propício à degradação da qualidade governativa, ao experimentalismo empírico, à não responsabilização pessoal pelas decisões erradas, à alternância continuada.
 
Porque terão medo os dirigentes partidários da eleição uninominal?
 
Porque não hão ser os deputados e os presidentes das autarquias escolhidos livremente pelo eleitorado em vez de indicados por partidos?
 
Traria isso dificuldades à governação?
 
Certamente que não. Nem sequer seriamos originais, uma vez que já muitos países europeus utilizam esse sistema de eleição.
 
Não é o presidente da república eleito sem ser escolhido previamente por um partido?
 
Quando tocarão os sinos a rebate para alterar este modo de coisas?

domingo, 10 de abril de 2011

Folclore eleitoral

Folclore? Ou Fado?

Música triste é.

Mas continuará o povo a contentar-se com esta música já conhecida que nos foi repetidamente apresentada ao longo destes últimos seis anos?

Continuará o povo a gostar de ouvir semelhantes papagaios que já não têm nada de novo a apresentar aos mais desesperados que não têm dinheiro para pagar o bilhete de autocarro para ir assistir à festa?

Convencerá este som o ouvido de quem já não tem dinheiro para pagar medicamentos e os bens essenciais para a sobrevivência do dia a dia?

Não sei se é só descaramento de atitude, se desprezo por todo o “zé povinho”.

Mas, que é triste elevar a mentira a principio geral orientador da governação, isso é, não tenho duvidas de que é.

Por isso, neste momento pré-eleitoral, poderei dizer ter dúvidas em quem vou votar, mas tenho a certeza em quem não votarei.

Neste país em que parece que tudo depende da falta de leis, em que tanto se legisla, se revoga, se altera, se volta a alterar, ainda não vi ninguém propor que passasse a constar da Constituição da República uma regra segundo a qual a falta de verdade nas declarações sobre as condições de governabilidade do país e os objectivos da governação seria motivo de perda de mandato e impedimento de ocupação de cargos públicos.

Creio que já é tempo de trazermos seriedade e dignidade às funções de governação.
O carnaval não dura sempre nem é modo de vida sustentável.

Contudo, porque o povo é “quem mais ordena”, esperamos que os candidatos digam tudo o que querem fazer e o povo venha a saber ordenar, escolhendo em conformidade com o que acharem mais razoável.  

Uma coisa é certa. Não vale a pena continuarem a dizer que se deixaram enganar, porque à terceira só cai quem quer caír.